Sunday, May 01, 2005

Deus é a nossa mulher a dias

O cigarro que me entrou nos pulmões, o ar quente e adulterado, ampliou o negrume que sobre a minha cabeça já existia. Saí da varanda a medo, da pequena tontura que sucedeu ao primeiro bafo. Consegui acabar tudo e deixei-me cair na cama a arfar, a recuperar do choque que me teria feito cair de uma altura de três andares para as pernas da porta da garagem.*

Ontem carreguei a cruz de nada ter feito; a total e absoluta inêrcia de quem fica em casa a não ver o sol. Apenas uma vez, quando fui fumar um cigarro à varanda do meu quarto.
Estiquei pelo corredor de dez metros toda a minha languidez e lassidão, o atrito trabalhador, o semi-sono da inutilidade. Pesou-me a inconsciência de bom cristão, o entregar-me aos mais pequenos afazeres, ao pecado da preguiça; poderia, na meia luz em que deixei a casa, dissolver-me nos lençóis da cama, nas paredes da cozinha, nos pratos do armário. Podia ter ficado nu, que não faria diferença alguma.
Não conversei com ninguém, apenas abri a boca para comer duas torradas e uma maçã. Algures no computador ainda conversei, sem abrir a boca, apenas um frenético gesticular de dedos de volta do teclado, a tentar acompanhar a velocidade do pensamento Velocidade que, por vezes, nem mesmo a boca consegue acompanhar.

*Na altura em que o fumo subia rapidamente até às minhas sinapses, Deus entrou. Trazia um lenço na cabeça, uma vassoura e um aspirador de água que tinha comprado na TV-Shop. Andou às turras com os meus novelos. Para desfazer uns quantos simples embrulhou uns que já por si eram complicados. Mas limpou-me as janelas, afastou o nevoeiro com o seu aspirador. Grandessíssimo cabrão, não queria que lá andasses a mexer:
- Estúpida mulher a dias, vai-te embora fazer aquilo que fazes bem, o que quer que isso seja.
- Oh, desculpa, mas se fores a Fátima de certeza que a Nossa Senhora te faz um arranjinho.
A minha vontade era de o mandar à merda, mas tendo em conta que era com Deus que estava a falar, achei melhor ser prudente.
E ainda tive que pagar a limpeza que me fodeu, com gorjeta. Ele há dias em que nem sequer um olho devia abrir.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home